Lisboa

Vim ao mundo na Clínica de S. Gabriel, em Arroios, às 04h20, do dia 21 de Fevereiro, de 1972. A minha mãe, então uma jovem de 19 anos, no momento do parto berrou e insultou as parteiras, a quem chamou de cabras e putas para aliviar a tensão das entranhas abertas e da passagem lenta da cachola macrocéfala deste vosso escriba. Nasci cabeludo, cabeçudo como um pepino, mas depressa fiquei careca e assim estive, reboludo, bochechudo e calvo, durante um ano.

Dizem que era uma criança bem-disposta, daquelas que comem tudo e dão noites tranquilas. Na clínica deram-me a cama 15E e quase ficava Joaquim José (Quinzé) no lugar de ornar um nome bíblico. Cresci entre os bairros da Graça e Alvalade, de colo em colo de avós paternos e avó materna. O meu pai foi para a Guerra do Ultramar logo a seguir ao meu nascimento e só o vi uma vez até ao pós-25 de Abril, quando já passava dos dois anos. Quando voltou para casa tinha por hábito ir acordá-lo para lhe arrancar os olhos com uma colher. Andámos de casa em casa, até voltarmos a Alvalade e o patriarca sair de casa para sempre. Alvalade foi o meu primeiro bairro. Ali fiz o tirocínio das artes da guerra que são as de crescer na rua, entre uma rapaziada danada da breca e ciganada dos bairros periféricos de Chelas, Cambodja e Vietname.

Comecei a visitar a aldeia cigana ao cimo da Avenida dos EUA, por curiosidade antropológica. Queria ser adoptado pelo rei dos ciganos e tardava em voltar a casa, deixando-me estar até anoitecer deitado à etrusca nos tapetes da família Lelo que vivia de expedientes de feira e outros, que não me apercebi ao certo, mas deviam ser marginais. Mais tarde vim a saber que eram contrabandistas e traficantes. Havia sempre guitarras, dança, cantos e lamentos, gataria e vira-latas e um vozear roufenho. Chamavam-me o russo de má-pêlo e acolhiam-me como um dos seus, mal sabendo que Salazar era de origem romani.

Um dia contei-lhes do meu negócio de venda de pinheiros e musgo à sorrelfa, não fora andar a larapiar alguém da família. Riram-se e disseram-me que fazia bem, pois os outros Lelo mereciam. Era uma espécie de rivalidade entre Montecchio e Capuleto. Cresci entre ciganos, que são homens de Roma que também é Amor. Nunca lhes soube os apelidos e os nomes era todos calés e calós seguidos de qualquer coisa. Ouvir Paco de Lucia ou Camarón de la Isla devolve-me ao tempo desses ciganos ibéricos, livres e patifes.

Tenho uma cicatriz na palma da mão esquerda feita por um Capuleto, o Joca. Era um cigano reles tresmalhado, de casa posta e com a mania das facas. Esfaqueou-me como dizem fazem os ciganos, à socapa, quando me aproximei dele para lhe dizer apenas põe-te a andar daqui para fora, antes que te corra mal a vida. O Joca era um bardamerdas e de mão a sangrar e tendão à vista ainda tive o sangue-frio de lhe dar um upper-cut nos queixos que lhe pôs metade da língua de fora.

Nunca fui de comprar brigas e só tenho mais cinco cicatrizes e meia-dúzia de ossos calcinados por fracturas de adolescência por ser um tanto ó quanto para o mexido. Há uma história memorável onde se prova como o preconceito é falível. Jogava à bola com o Nelson Badocha quando vimos os chonés, a família de ciganos mais temida das redondezas, de quem se dizia terem enforcado um tipo mau de contas nas matas da Avenida do Brasil. Desatámos a fugir para as traseiras da Rua Leite Vasconcelos e procurámos refúgio num telheiro de uma garagem. Disse ao Nelson Badocha para estar calado e não se mexer muito, não fosse o telheiro ruir. O Nelson deu então um passo em falso e enfiou-se por um telhado de vidro indo aterrar como um porco exangue em cima do capot de um Ford Mustang. O berreiro era tal que os chonés deram connosco e assim se deu uma operação de resgate inaudita. Eu e mais cinco chonés tirámos o Nelson Badocha do seu ribeiro de sangue, desmaiado e com a perna aberta de alto a baixo. Apertei-lhe a perna com uma toalha roubada de um estendal, levantámo-lo ao alto como um marajá e fomos, eu e mais seis ciganos, até ao Hospital de Santa Maria para coserem o meu amigo esventrado. Lembro-me de ali chegar e os polícias acharem ter sido obra dos ciganos e antes que avançassem, parei-os e disse-lhes para darem à sola e trazerem mas era uma maca.

Esta atribulada infância alfacinha durou até aos 13 anos, quando zarpei para Cascais, só voltando à terra já em idade de estudante universitário. Voltei a Alvalade, e era já outro bairro de outra Lisboa, sem as pistas de caricas de terra batida, as covas do berlinde, as arenas do pião, as esquinas do bate-pé e as praças desprovidas de asfalto. Os ciganos da Avenida tinham debandado por conta de um eixo na via.

 

Tiago Salazar

 

 

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